Thursday, January 08, 2015


Uma montanha cheia de abutres

Muita gente de jornalismo está fazendo um alvoroço pelo filme O Abutre porque é a história de um cara que entra por acaso no meio do jornalismo-verdade à la Datena e se descobre um talento nato paras desgraças da vida. E achei muito esperto quem quer que tenha traduzido o título original Nightcrawler pro nome abutre porque é impossível não lembrar de outro filme genial sobre o mesmo circo que uma mídia manipuladora pode armar com a obra prima do Billy Wilder, A montanha dos sete abutres (cujo original Ace in the hole também nada tem a ver com o pássaro em questão). 

Mas mesmo no início do filme comecei a perceber que o filme vai muito além do jornalismo (apesar de ser uma face sombria do que se tornou a profissão hoje em dia e merece ser visto por estudantes dela) e vira um estudo de personagem, independente da área que ele enveredou. 

Claro, no fim o carase mostra mesmo um sociopata de marca maior florecendo a olhos nus enquanto descobre o quão bom é em algo (mesmo que esse algo seja podre, até porque vocação é algo bizarro, vide Walter White, professor de química mediano cujo real dom era ser rei do tráfico de Meth) e alçando voo. 

Louis é o retrato da época em que vivemos. É esperto, inteligente, quer subir e ser alguém na vida. Mas tem que lidar com esse lixão a céu aberto que virou nosso planeta, com 7 bilhões de animais, poucas águias, muitos abutres, maioria inseto, com poucos empregos, custo de vida alto, um canibalismo selvagem que é viver em pleno 10's.

E fruto desse meio hediondo, ele sabe que a vida de um carniceiro não é fácil e adaptação é regra. Saber sobreviver em épocas de vacas magras (roubando uns ferros e relógios aqui e acolá) mas sempre se guardando para quando dá de cara com um boi morto só pra si. E fica inevitável não associá-lo ao bicho que vive de restos e vai até onde outros animais jamais iriam já que vagando pela noite, sempre à espreita de qualquer oportunidade pra dar o bote, ele deixou de ser um humano com escrúpulos para virar uma besta que só compreende que é preciso sobreviver. E brilhante é a frase que encerra o filme quando Lou brada que nunca pediria aos demais para fazer o que ele mesmo não faria porque sabemos ser a mais pura verdade. Ótimo na auto promoção e melhor ainda com as palavras, ele jamais mente mas dissimula com maestria. 

E por fim chego no ponto principal do filme. A desgraça alheia. Geniais são os alemães que até tem palavra para a apreciação da desgraça do próximo porque ela é real e cada dia mais assimilada. Apesar de Lou ser sim um psicopata, todo mundo é meio abutre, mesmo que não admita. Por isso programas desgracentos existem, por isso a perna furada de uma ex miss bumbum vira trendingtopics, por isso videocassetadas ainda são realidade nos domingos da família. Porque por mais que ninguém em sã consciência se identifique com o protagonista que agora produz a própria carcaça antes de devorá-la, a miséria do próximo conforta, dá alento, ANTES ELE DO QUE EU. E com isso, enquanto consumimos a famosa schaudenfreude, somos todos meio carniceiros também.


If you're seeing me, you're having the worst day of your life.