Sunday, February 01, 2015


Se definindo em uma palavra 

Uma vez meu melhor amigo explicou bem a razão de detestar já chegar falando que é gay e ela vai além de, hum, não ser da conta de ninguém mas porque, em suas palavras, ele é filho, amigo, produtor de objeto, extrovertido, aficionado em musicais, alto, tem ascendência russa e ah é, gosta de rapazes. Ele é muita coisa mas sabe que vira ponto de referência pra muitos só pela orientação sexual.

Não sou ingênua e sei que quando alguém me descreve (principalmente pra algum homem e com a intenção de um futuro relacionamento) a palavra gorda entra logo de cara na roda. Sei que homens são criaturas visuais e que ninguém fode um cérebro. E já passei da fase de encanar (tanto) com essa característica física minha porque a vida é curta e coisa e tal. 

De fato, eu sinceramente me sinto tão orgulhosa de quem eu sou e do que já fiz pra me definir por uma palavra só que honestamente só lembro que sou gorda quando coloco alguma calça e o troço aperta pra caramba na pança e é por isso que faz quase um ano que só uso vestidos, essas peças de roupa libertadoras da silhueta. 

Mas esse post não é sobre ser gorda e sim sobre concessões. 

Quando você vai lá no jogo da sedução conhecer alguém e dar a cara a tapa, você invariavelmente está abrindo mão de muitas características que desejaria nessa possível cara metade porque você aprendeu (eu espero, principalmente depois de três décadas de vida) que não existe perfeição. E eu sei que mesmo que encontre um cara maravilhoso, que ache genial esse meu amor doentio por cinema, goste das mesmas bandas estranhas, curta os mesmos livros,  converse sobre ficção científica, queira ficar de domingo fazendo maratona de serie, transando e comendo na cama, ele ainda assim vai lá no fundinho da alma cogitar a existência de outra garota assim mas com 20 quilos a menos. C'est the fucking la vie e não perderia meu sono com isso. 

Só que essa semana eu pedi pra mina lá do meu serviço me apresentar alguém e ela passou meu número pra um colega de faculdade e começamos a conversar, comigo mesma já fazendo algumas concessões tais quais o moço ser dez anos mais novo (não curto, nunca fiquei com um e pra mais detalhes consulte meu psicólogo) e desempregado (porque insiste em querer seguir carreira no cinema). Me julguem. 

Não preciso nem imaginar muito pra saber que ele fez a pergunta de ouro (como ela é fisicamente?) e ela jogou a palavra definidora de todas as mulheres comíveis ou não. Mas como a conversa desenrolou pela semana adentro, imaginei que nós dois tivéssemos aberto exceções e continuamos a ver no que dá. Até que na quinta-feira fui beber com o pessoal da firma e como a moça adora encher o bumbum de cana e deixar eu brincar com o tinder dela (her lost), acabei fuçando o whatsapp também e lendo a conversa que ela teve com o dito cujo (me julguem de novo). Até então, nada que fosse 'chateante', ele perguntou logo de cara e ela me descreveu como mais gorda que ela e menos que a Fernanda (beijo Fernanda, nem te conheço e já te considero pacas por ser ponto de referência de obesidade). E nos próximos dias, ainda conversando comigo e já interessado em me chamar pra sair, curtindo a minha ~inteligência~ e ser ruiva (beijo, Majirel), ele ainda teve que insistir no quão PREOCUPADO estava com a minha gordura (palavras exatas). Fofo, né? Talvez mais do que qualquer endocrinologista que tenha passado na minha vida, o mocinho quer sair comigo mas não deve estar dormindo de noite por não saber exatamente qual o meu IMC. 

E nessas horas vem a minha fúria. Eu, Karina, 32 anos e meio, cara e cérebro de meu pai, aficionada por filmes, apaixonada por gatos, amante de Brit rock deprê, preguiçosa, estressada, faladora de putarias que deixariam Bocage constrangido, triglota (indo pra quarta, danke), conhecedora de mais de dez países, que se sustenta e se garante pra caralho, peituda, sem bunda nenhuma, ruiva falsa e que não alisa os cabelos nem por decreto, olhos azuis originais e míopes, bem mais baixa do que gostaria e bem mais gorda do que se importa e, ó, BEM BONITA, JÁ FIZ CONCESSÕES POR TEMPO DEMAIS, por judeus, ególatras, mentirosos, casados, burros E feios, fracassados, traiçoeiros, perdedores, frustrados, com paus pequenos e sem habilidade com línguas e mãos,  sem dinheiro, emprego e ambição, pouco caráter e principalmente, EXCESSO DE EXIGÊNCIAS MESMO SENDO UNS BOSTAS MAS QUE SE ACHAM MERECEDORES DE UMA TOP MODEL DA VICTORIA'S SECRET. 

Pra vocês, meus caros senhores, eu desejo uma sincera tomada de cu a seco, porque eu me defino em uma palavra: Sou é BOA demais pra todos vós!