Life is
what happens while you’re pretending to be normal
Aos 17 tinha a vida planejada. Meu pai sempre me disse que deveria passar
na USP e, como um cálculo matemático preciso, tinha tudo estruturado: Quatro
anos de faculdade, ser formada aos 23, arranjar emprego bom, provavelmente
casar, ter filho aos 30 como minha mãe, ser ‘gente’ assim como meus pais.
Mas veio a depressão. De novembro de 1999 a sei lá, março de 2001 eu praticamente não sai de casa. Perdi formatura do colegial. Perdi 2ª fase da Fuvest. Perdi a vontade. Perdi.
Mas veio a depressão. De novembro de 1999 a sei lá, março de 2001 eu praticamente não sai de casa. Perdi formatura do colegial. Perdi 2ª fase da Fuvest. Perdi a vontade. Perdi.
Foi o começo do fim e por toda a década passada eu apontei o
dedo pra essa curva mal virada como a causadora de tudo que deu de errado na
minha vida. Mas, o que deu de tão errado assim?
Porque desde os seis anos que criei pavor de gravidez, quando
adolescente jurei não ser mãe e estragar minha vida como todas as meninas da
minha rua e fui Au Pair não uma, mas, duas vezes pra ter a certeza de que
aquilo, filhos, não era pra mim.
Tão pouco me vejo casada/ajuntada com alguém. Nem é mais
medo de repetir o erro dos meus pais fracassando no que eles chamaram de
casamento. É autoconhecimento. É liberdade. É até egoísmo de saber que sou mais
feliz sem relacionamentos. Sexo, carinho, beijos, sim. O resto, dispenso.
E a certeza de que sempre fui diferente. Essas ambições
ditas normais como diploma, MBA, comprar posses e ter coisas, ganhar salário
bom, ostentar uma carreira. O que é isso? E pra que preciso disso? O cinema, a
música, as línguas, as viagens, isso é o que eu quero. Isso é o que me faz
viver. Acordar e fingir que sou como os outros que querem o que descrevi lá em
cima no primeiro parágrafo é só camuflagem.
Isso porque não dá pra levar ao pé da letra o mantra de
estar velha demais para... Para o
quê? Nunca estive e me senti tão jovem. O casamento que não terei, os filhos
que não parirei, o carro, a casa e a ‘estabilidade’ que não desfrutarei são o
que me mantêm viva. A liberdade de poder decidir em uma semana ir pro Chile com
meninas que poderiam ser minhas filhas pra ficar em albergue, de encasquetar em
aprender uma língua que até então achava feia e difícil demais e estar quase
matriculada e já estudando sozinha fonética Deutsche, de poder dar a louca (de
novo) e ir morar onde a oportunidade surgir e... Os móveis? Os vendo. Os
livros? Encaixoto. O serviço? Me demito. É fácil assim pra quem virou a curva ‘errada’
como virei. No strings attached é o melhor que poderia ME acontecer. Ou NOS
acontecer, no caso de você ser como eu.
Porque loucura não é fazer bate-volta num país distante. É
criar raiz numa vida que não é pra gente estranha. Isso é pros normais.

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