Wednesday, January 22, 2014



Dois tipos de gente

Todo mundo adora classificar as pessoas, e de costume, sempre em dois grupos. Os sociáveis x os antissociais. Expansivos x tímidos. Carismáticos x antipáticos. Realistas x sonhadores. Os que gostam de cachorro x os que gostam de gato. Enfim. Se você é uma coisa, é muito difícil que se torne a outra. 

Aliás, vamos falar de cachorros e gatos? Cães são tão queridos, né? Gosto pacas deles (mas até a página dois). Sempre querendo teu amor, carentes de marca maior, fazem TUDO e mais um pouco pra que você os ame. They connect people. Admiro tamanho desapego próprio pelo afeto alheio. E bom, quem não gosta de um ser que se compromete tanto em agradar, não é mesmo? Sabe quem? Quem gosta de gatos. 

Amo gatos. Sou obcecada por eles. Se existe sasporraê de reencarnação, que eu venha felina porque Ô RAÇA SUPERIOR. Gatos não se importam. Eles vivem em função de suas próprias regras e vontades. Eles cagam e andam pra quem quer que seja senão eles mesmos. E não, isso não quer dizer que eles não gostem de ninguém. Só que eles demonstram esse afeto QUANDO querem. E COMO querem. Cats don't compromise. 

Corta. Agora vamos falar de cinema (sempre)? Os irmãos Coen (esses lindos que adoram dar nó no meu cerebelo e ainda aguardo alguém pra, pleeeease, me explicar Um homem sério) nunca fazem filmes sobre o que você acha que realmente são.

O último filme deles, por exemplo, Inside (o quase impronunciável) Llewyn Davis, é sobre um cantor antissocial, antipático, arrogante, metido, soberbo e, como repete Carey Mulligan (no único filme em que aparece com pulso e "falando pra fora") por diveeeeersas vezes, is AN ASSHOLE. Do tipo que pede dinheiro pro marido da mulher que ele engravidou pra que ela faça o aborto. 

Mas os Coen não fizeram um filme sobre a cena folk sessentista e sim sobre cachorros e gatos. E não tô nem falando do onipresente felino amarelo (e liiiiiiiiindo) que é carregado por Llewyn. Eles fizeram um filme sobre como gente-cachorro, assim como o animal, se dá bem melhor na vida que gente-gato. 

Llewin, esse moço detestável com sua barba e cabelos Scorsese on coke, apesar de talentoso, come o pão que o diabo amassou, pisou e sapecou na neve congelante de NY a Chicago,  porque é um ser sem filtro, que não tem meio-termo na vida. Llewyn is a cat. Or the cat, como bem diz uma secretaria ao telefone. Não à toa ele só parece se importar com o bichano e preterir os humanos. 

E é duro querer viver (e ter sucesso) com artes (ou com quase tudo, pra ser honesta) se esquecem de te contar que talento não é tudo e que ter conexões sociais, carisma e diplomacia te levam bem mais longe. Que às vezes você vai ter que transformar a barba em cavanhaque, se juntar a um trio, gravar música cafona ou dormir com o dono do bar pra tocar onde o pessoal da Times frequenta. Você vai ter que balançar a droga do rabo pra ganhar a ração. 

E lindamente mostrar que infelizmente pessoas não mudam. Adoraria ter algum tipo de esperança que a incrível jornada de uma semana do gato Llewyn tenha mudado sua estirpe mas a gente não muda de raça. Ele só chega ao fim mais escaldado sabendo que sempre vai encontrar alguém pra chutá-lo no beco sem saída porque não consegue deixar de arranhar quem quer que seja enquanto fica claro na última sequência (déjà vu da primeira) que vão preferir um cachorro chamado Dylan.

Poderia escrever mais e mais e mais do que se tornou o meu segundo filme favorito dos Coen (ou primeiro já que este e o Grande Lebowski são coisas totalmente díspares) já que o vi três vezes desde sexta e não parei de achar mais simbolismos e afins, poderia falar como estou chocada que ignoraram o ator Oscar Isaac já que ele merecia ao menos uma indicação ao prêmio que leva seu nome, ou como não paro de escutar a trilha linda e melancólica enquanto espero pra vê-lo de novo mas dessa vez no cinema. Um filme lindíssimo (que fotografia...), bem-humorado (nem achei que fosse rir tanto) e que vai passar despercebido, infelizmente.