Gente que manda e gente que obedece
Minha mãe é aquela que leva um pisão no pé e se desculpa por ter ficado no caminho da pessoa que a machucou. Pessoa que serve só pra ser mandada.
Meu pai sempre foi gerente. Chefe. Nunca me esqueço do dia em que humilhou a secretária. Magali. Até hoje, mais de duas décadas depois lembro do meu pai, o patrão tirano, despejando sua raiva em Magali, a empregada que errou. Me marcou. Nunca mais esqueci da pobre Magali e de como NUNCA SERIA MEU PAI.
E eu, mix perfeito da passividade idiota da minha mãe e agressividade bestial do meu pai, sou chefe. Coordeno. Nove professores exercem suas obrigações sobre minha supervisão.
Só que eu, aquela que foge de conflitos e evita combates, aquela que nunca humilharia um subordinado, aquela que insegura quer ser legal pra ser aceita, virou aquela que leva pisões no pé e se desculpa aos seus empregados. A frouxa que pode ser dobrada com facilidade, que abre exceções e faz favores. A que deixa pra lá.
E hoje, eu, com razão e educação, fui cobrar o professor que libera a turma vinte minutos antes todo sábado. Não pode. Regras, you know. O aluno compra uma carga horária. É seu direito ter aquelas horas e minutos de aula. E é obrigação do professor estar sempre preparado, com atividades a mais.
Ele sabe. Eu sei. Ele estava errado. Eu, de novo, com razão e educação, só disse: Não faça mais isso.
NÃO FAÇA MAIS ISSO. Sem humilhação. Sem bronca. Sem xingo. Um chefe corrigindo um erro de um funcionário.
Mas as pessoas são como cachorros. Elas se farejam. Elas sabem quando podem te morder.
Fui humilhada. Com a razão, tive que me desculpar porque ele comunicou que não ficaria pra próxima aula por estar ABALADO pelo meu 'não faça mais isso'. ABALADO. PSICOLOGICAMENTE. E eu me desculpei. O elogiei. Me desesperei. Dei mais pele pra ser devorada pela pessoa que estava errada. E passiva, chorei. Me descontrolei. Me mostrei frágil pra que todos vissem o quão fraca e despreparada estou. Não pra coordenar. Mas pra lidar com o ser humano. Esse efeito colateral da evolução.
Só depois percebi que chorei por MIM. Por deixar que me usem, que me pisem, que peguem a minha razão e virem o jogo me fazendo de vilã. Chorei decepcionada comigo mesma. Porque por medo de ser meu pai, fui minha mãe ao extremo. A fraqueza em pessoa.
E tenho duas opções. Pedir minha demissão como prometi. Sumir dali. Fugir mais uma vez.
Ou ser meu pai. Não ser amiga. Tenho amigos e eles não são aquelas pessoas. Elas não tem que me aceitar. Me amar. MAS ELAS TEM QUE ME ACATAR. ME RESPEITAR. E SEGUIR MINHAS ORDENS. Ou seguir seus caminhos, em escolas onde as regas as façam mais felizes.
Escolho ser meu pai ao menos uma vez na vida. Porque cansei de usarem minha passividade como escada pra montarem nas minhas costas. E se mais Magalis tenham que ser humilhadas no meio do caminho, que seja, é bom pra que parem de ser incompetentes e não pisem mais no meu calo. E pra mostrar com o medo, que eu também tenho um monstro guardado dentro de mim, agressivo e pronto pra trucidar se atacado demais.

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