O filme mais deprimentemente realista do mundo
(Spoilers em azul mas faça um favor: Baixe e assista...)
Estou fazendo uma maratona dos filmes do Haneke e ia no fim escrever um rank com nota e o que achei de ver (ou rever) cada um deles.
Nisso me deparei com o 1° dele, de 1989, chamado O Sétimo Continente. E bom, pela descrição do IMDB, parece a história de uma monótona família que vai da Áustria pra Austrália.
Decidi colocá-lo pra rodar na quarta à noite e deitei, pensando que o que viesse primeiro (sono ou fim do filme) seria lucro. E acabei passando a madrugada inteira rolando na cama e pensando naquilo tudo que vi.
O filme é dividido em 3 partes, cada uma com o dia normal de um pai, uma mãe e uma filha de uns 8 anos de classe média nos anos de 87, 88 e 89. O que pode parecer (e é) absurdamente sacal em ver como a vida deles é chata e repetitiva já é a primeira sacada pra identificação. Se filmarem um dia a esmo de 99,9% da humanidade, incluindo o meu e o seu, mesmo num lapso de anos, seria insuportavelmente igual ao que se vê no filme. Porque a vida é uma sucessão de atos rotineiros empilhados em minutos, horas, dias, anos...
Logo, criando uma tensão do nada, começa à dar uma agonia em assistir tudo aquilo. E mais agonia por se sentir tão mal, afinal, é só a vida entediante de 3 pessoas ordinárias. Estamos acostumados à nos incomodar com cenas chocantes e, numa ótima jogada de direção, o filme faz o espectador se sentir cutucado pelo tédio. Porque sua vida é aquilo ali também. E vista minuciosamente, percebe-se que isso se resume ao que chamamos de existência. E é uma droga que não vai mudar.
E com isso o sentimento de que algo muito ruim vai (ou precisa) acontecer. De novo, é fácil produzir suspense com um assassino e uma faca na mão. Mais difícil é não parar de assistir à um filme moroso porque você sabe que pelo amor de deus, eles precisam reagir ao automatismo que a vida se tornou.
Nisso, chega-se ao terceiro ato. Demissões pedidas. Economias sacadas do banco. Carro vendido. Banquete encomendado. Eles vão mesmo se mudar. Só que não. E mais do que mostrar uma família assumindo um pacto suicida, as cenas da destruição material são de um murro no estômago tão grande quanto a própria morte dos três no fim. Num mundo em que você é a rotina que assume, você é o que tem. Sua cafeteira, seus discos, seu sofá, seu dinheiro. E ver que o suicídio ali se dá por completo, que eles deixarão de existir não somente porque matarão seus corpos mas porque destruirão o que possuem também, que nada deles restará é brutal. E brutal é saber que tudo foi baseado em fatos reais. E mesmo que não fosse. Tendo crescido na mesma época em que o filme se dá me deu uma sensação extra de desconforto. Tudo ali se parecia com o que eu tinha na idade da menina. O 'podia ser a minha família' bateu forte. Podia ser qualquer um que acordasse do pesadelo que é a rotina e assumisse o niilismo puro de que nada tem sentido mesmo e a única vontade própria que podemos ter é de acabar com tudo.
Sem mostrar cenas fortes, é o filme mais violento de um diretor que sabe mostrar a violência que é estar vivo...
...Ou existir, que é o que a gente faz na maioria das vezes.


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