Tuesday, October 09, 2012




Um mês depois (e uns seis rascunhos desconexos)

Tem filmes que você assiste e ama. Outros você detesta na mesma hora. A grande maioria infelizmente você esquece entre a saída do cinema e a volta pra casa. E tem filmes que você simplesmente não entende o que aconteceu.

Faz exatamente um mês que estou tentando escrever sobre The Master, afinal, tive todo um trabalho pra ir vê-lo "no estrangeiro" duas vezes seguidas (mas não suficientes) e nesse ínterim o filme estreou no circuito Americano, muitos gostaram, a maioria odiou e acredito que poucos esqueceram do bendito voltando pra casa. 

A verdade é que precisei de todo esse tempo pra digestão. E pra assumir que mais uma vez, me senti muito identificada com o personagem que vi na tela (e acreditem, é mais fácil admitir que se identifica com o bilionário misantropo e assassino de Sangue Negro do que com Freddie de The Master... Mesmo).

Tem gente falando que o filme não tem história. Só me resta rir e atirar um livro de roteiro do Syd Field na cabeça dessas bestas porque o que não falta nele são histórias. A questão é, o filme é Freddie e como ele o filme é um pedaço de pau boiando no mar. Pra lá e pra cá, pode não ter rota (ou uma vida normal como a grande maioria) mas ele flutua (ou vai vivendo) como dá. 

Okay. Freddie é um animal. Só consigo explicá-lo citando o tal ID da psicanálise. Ele é o incontrolável. O que se deixa beber, bater e trepar como uma fera louca e constantemente no cio. Ele é o que todo mundo tenta controlar com o super-ego. O oposto da gente que se controla pra não beber e se matar em vícios, não estourar a cara do babaca que dá uma fechada no trânsito, mandar o chefe ir pro inferno  e comer e/ou dar pra todo mundo que apetece sexualmente. Ele é o que eu amo chamar de broken beyond fixing. 

Só que entra o tal mestre. E você se coloca na posição da esposa dele (compreensível, quem pegaria um pitbull raivoso pra servir de bicho de estimação dentro de casa?) e se pergunta, porque raios tentar consertar algo irreparável? A identificação, oras. Mestre e cachorro (e pra mim não existe outra explicação para o título) são as duas faces da mesma moeda (brilhantemente exposta no poster mais lindo do filme). Ele acolhe Freddie pela mesma razão que a maioria odeia o filme. Porque bradam "não se identificarem" com a personagem principal já que quem admitiria se identificar com um louco quando vê um? Só que de louco, todo mundo tem um pouco (ou muito).

É lindo ver o mestre Dodd tentar controlar Freddie. Suas palavras de bom charlatão, sempre repetindo que somos todos mais evoluídos, uma outra raça, com uma alma e muitas vidas e elevação quando não passamos de animais domesticados, encoleirados e enjaulados pelas regras, leis, convenções e super-ids da vida e julgamos os Freddies, "livres" (por uma guerra, um amor perdido, álcool "caseiro" ou  pura loucura).

E nem me dou ao trabalho de explicar os porquês que esteticamente o filme é de uma perfeição doída. Os tais 70mm, a cinematografia (mas quando é que um filme de PTA não é lindo aos olhos?) e que num mundo perfeito Joaquin Phoenix, Phil Hoffman e Amy Adams já deveriam ter seus Oscars enviados pra casa, AGORA.

Achei tão maravilhoso que de novo Paul Thomas Anderson beat me at the punch, me atingindo com mais um filme como quem leva um paralelepípedo na cabeça e  me dando algo que eu quero assistir e re-assistir mas nem sabia. Se engana quem acha que é um filme sobre Cientologia ou qualquer religião. É sobre a psique humana e como tentamos enganá-la e dominá-la o tempo todo, fracassando quase sempre.



E eu, meio Freddie Quell, agora só quero fugir num barco pra China...