Friday, September 16, 2011

P.O.V.

O que mais falta nas pessoas é se colocar no lugar do outro. Se eu sou feliz vivendo de forma X, parece impossível perceber que talvez pra pessoa do lado agrade mais o Y. 
E então alguém me pergunta porque raios eu não poderia ser feliz aqui. Vejamos:

As pessoas que eu conheço que moram em São Paulo, independente de suas 'tribos', levam vidas muito parecidas, na minha opinião. Elas parecem gostar da rotina 9 às 5, 5 vezes por semana. Elas esperam pelo fim de semana como recompensa de labuta. Não se importam em perder horas de vida diariamente no trânsito, desde que em seus carros (porque TEM que ter carro...). Adoram baladas semanais pagando 50, 70, 100 reais pra poder estacionar, entrar, beber, dançar. Apreciam feriados polongados só pra fazer o que todo mundo faz que é esticar pra praia. Vibram quando sai sol (mesmo estando numa cidade sem vento e que vira uma bolha abafada). Elas vão ao shopping comprar. Elas amam a cerva gelada no bar. Elas são assim e gostam de ser assim.

E francamente? Tô velha demais pra julgar. Como diria a propaganda do mercado: O que te faz feliz? Se é isso, ótimo! Só não me peça pra me encaixar no parágrafo acima e gostar de tudo isso também. 

Eu gosto (e podem chamar de esnobe, de novo, too fucking old to care) de transporte público. Poderia viver minha vida toda sem pagar IPVA e feliz. Primeiro porque é dentro de coletivos que descanso, leio, corrijo lição atrasada, escuto minha música e escrevi o esboço desse post. Segundo que acho errado entochar carro na rua. Não sou ambientalista chata mas só tenho um planeta, ainda me resta uns 30, 40 anos (ou mais, hope not) de vida e com a minha idade já acho difícil respirar na rua com tanta poluição. 

Também gosto de fazer nada. É maravilhoso. E grátis. E aprendi a fazer isso em parques. Nada é mais gostoso que esticar a canga na grama, deitar e ficar panguando. Mas como fazer isso sem me preocupar com o CO2 maldito da avenida Ibirapuera ou sem ser molestada por algum tarado ZN no parque do Horto?

E o cinema? Todo mundo sabe que vou ao cinema com a mesma frequência que alguns tomam banho. E como fazer isso pagando 20 pilas por filme em cinemas com gente que não sabe se comportar?

E a arte? Pô, sou nerd. Fui dormir tarde dia desses por ficar vendo documentário sobre esculturas da BBC no youtube! Quartas-feiras são noites felizes porque tem dobradinha na Cultura de filmes da Mostra e Cultura Documentário (quase sempre em francês). Primeiro domingo do mês era meu tesão porque passava o dia todo no museu na faixa. Ia felissíssima ficar na fila por duas horas só pra ver a Liberdade guiando o povo mais uma vez. 

E sou neo-hippie. Não quero ajudar a mover a porcaria da roda da economia. Compro coisas que gosto mas poucas coisas que gosto custam algo. E povo aqui tá pior que americano. Felicidade hoje em dia é só ter dinheiro e comprar, comprar, comprar. Numguento.
Agora é possível que eu seja feliz aqui? Que me reacostume com isso? 

É como comer a comida mais gostosa já feita. Transar com um cara fenomenal in the sac. Morar numa casa ampla, iluminada, confortável. E voltar pro miojo instântaneo, pro broxa, pro barraco e tentar ser feliz.

Por isso, não julgo que gosta de SP. E não quero ser julgada por saber que é uma merda perto do que já tive na vida.