Saturday, December 05, 2009

Fim do Mundo: Vire à direita

2012, Impacto Profundo, O dia depois de amanhã, Eu sou a Lenda são filmes tipicamente hollywoodianos com foco nos efeitos especiais e finais redentores pra que todo mundo que os esteja assistindo tenha seu lado sádico nutrido ao ver tudo ser destruido mas ao mesmo tempo tenha um consolo, um "calma, é tudo mentira..." pros medos da semana mundiais.

Meu lado sádico/pipoca ama gastar meu dinheiro nessas bobagens mas meu lado pensador ainda assim não consegue ficar calado com perguntas como: por que sempre os pontos turísticos são pegos em cheio? O meteoro/onda/vulcão sempre atinge O empire state em cheio. Mas nunca o Flat Iron que fica a alguns quarteirões. A casa branca então, deve ter sido pintada com tinta fluorescente alien já que é mira de todo ET da galáxia. Sem contar os mocinhos, sempre limpos, nunca com fome, todos os membros do corpo intactos, nunca lhes falta energia - do tipo elétrica, mesmo, água, um laptop amigo ou celular que funcione e gasolina no carro. Eu sei, eu sei, é querer demais que isso aconteça e é por isso que meu lado masoquista corre atrás de coisas mais realistas, que me façam sofrer pensando que "sim, é assim mesmo que seria!!!"

Um exemplo disso é uma associação direta do meu cérebro entre Eu sou a Lenda e Ensaio sobre a cegueira (Mil desculpas senhor Saramago!) pelo simples motivo de que a coisa mais dispar ao meu ver no primeiro fime não é o vírus assolando a humanidade matando metade e transformando a outra em zumbis da noite e sim a droga da casa do Will Smith funcionar completamente. Quem são os zumbis treinados no depto. de Água e Luz pra que tudo continue vital por ali enquanto Will assiste filmes, dá banhos quentes na sua cachorra e usa muita energia no seu super avançado laboratório? ISSO ME IRRITA. Já Ensaio me dá um "conforto realista" ao mostrar que num filme em que todos ficam cegos, problemas filosóficos e sociológicos vão estar lado a lado com problemas práticos como cocô... pessoas, mesmo cegas, cagam. E ai, José? No meio da filosofada toda do que é humanidade ou não e o que raios está acontecendo, perguntas como "de onde vem a comida?" e "onde fazer xixi?" também emergem.

O que me leva a THE ROAD (que no Brasil deve ganhar o nome de A estrada, imagino). No filme (baseado em livro homônino que quero ler...) o mundo "está acabando" mas tal qual Sinais, de Shyamalan, não espere respostas do que raios esta acontecendo lá fora. O foco está em um pai tentando sobreviver (e viver) com seu filho no meio do que anda restando de planeta Terra na última década (e não é muita coisa). Tudo é cinza, o sol é encoberto por nuvens 100% do tempo, só chove, está frio e há queimadas e explosões o tempo todo. Todos os animais e plantas morreram e as árvores, ainda de pé, estão mortas por dentro e caindo a torto e a direito. Por essas descrições, apostaria dinheiro que fomos atingidos por um cometa pequeno. Os homens, depois de anos, ainda resistem (somos uma praga resistente, eu sempre digo...) mas óbvio, quando temos que escolher entre sobreviver ou manter a humanidade, peferiremos sempre a primeira opção. As poucas armas de fogo parecem essenciais pra matar quem se aproxime ou como "seguro", apertando o gatilho contra a própria testa e acabando com a miséria. E o medo, agora, é do canibalismo. Nesse mundo retratado, o melhor é ficar sozinho já que ver uma silhueta humana no horizonte pode significar que alguém vai te comer, no pior sentido da palavra.

É um filme horrível e lindo. As atuações são muito boas e seguram algumas pieguices. Eu vivo esquecendo como Viggo Mortensen é um ator explêndido mas ainda bem que ele vive me relembrando. Ele está em quase todas as cenas e se fosse menos talentoso estragaria tudo sendo um personagem - como ele mesmo diz ao filho em determinado momento- que parece vir de outro mundo. Por que ele sabe que sobreviver é tudo ali (e prioriza bem essa obrigação pelo bem dele e de sua cria) mas ainda assim se apega a todo e qualquer resquício de vida, lembranças da mulher, música, infância, prazeres que nos diferem dos "irracionais" mesmo enquanto tem gente comendo gente pra nao morrer. O filho (assim como no livro de Saramago, as pessoas não tem nomes) é eficiente, não banca a criança fofinha e exibe de forma eficaz a maturidade necessária pra alguém que nasceu no meio do fim de tudo mas a ingenuidade de alguém que quer queira ou não , não tem nem uma década de existência. Em menor participação, Charlize Theron está maravilhosa. Ela é a própria descrença humana, fala pouco mas mostra no rosto tudo o que está pensando. Robert Duvall e Guy Pearce (totalmente irreconheciveis- but I did...) também estão bons mesmo com poucas falas.

Muito denso e tenso, você fica se questionando o tempo todo o que faria no lugar de todos eles. O que é "menos pior"? Se matar logo e acabar com tudo? Continuar sobrevivendo e talvez cometer o ato mais radical de todos? E como manter a tal chama viva no caos instalado? Se apegar a principios como ser bonzinho ou vilão? E o que são os principios que conhecemos quando há uma nova ordem das coisas?

Terrivelmente belo.