Saturday, July 19, 2008

Os escafandros e as borboletas

Existe um ditado que diz que Deus dá cobertas pra quem não sabe se cobrir. E são várias às vezes que temos “lições de vida” jogadas na cara pra provar o quanto se é desperdiçado de vida em não viver plenamente.
Bem mais chocante do que ver um homem que sofre um AVC e se encontra isolado de todo o mundo por meio de seu próprio corpo que virou seu caixão (ou escafandro, palavra estranha e bonita que dá nome ao filme em questão) é saber que tudo aquilo na tela foi relato real do mesmo homem e de como este conseguiu ditar um livro - a adaptação pro cinema - com piscadas de olho!
E talvez as pessoas se dividam entre as prisioneiras e as que voam… mesmo preso em sua cela/corpo, o protagonista ainda é borboleta. Não há arrependimento ou raiva ou auto-piedade, por que tais sentimentos só existem nos que procrastinam em viver. Os flashbacks mostram uma vida plena pré-derrame e por isso, não há do que se arrepender. Restando somente cérebro e olho, ele ainda vive com toda a força que lhe resta, mesmo que de dentro pra fora, piscando as palavras que ecoam ou lembrando e imaginando, pois não é a imaginação aquela que deve ter asas?
Bem mais útil que livros de auto-ajuda que pregam palavras reconfortantes ou filmes de superação de pessoas que dão a volta por cima, a beleza deste filme em está na verdade brutal de que tudo é uma questão de escolha: viver no fundo do próprio mar enclausurado numa caixa de ferro e medo mesmo com toda a saúde, dinheiro e disposição ou alçar vôo.
Um belo filme. E um belo tapa na cara de uma covarde que morre de medo de morrer afogada em emoções e prefere ficar sequinha, dentro do escafandro que construiu como eu…

(oh, yeah...a fotografia do Janusz Kaminski- DP número 3 da minha lista de DPs que sabem o que é cinema- todo o começo "dentro" do protagonista, o ator Mathieu Amalric - que eu amei em Munique e aqui está ótimo- e a homenagem à Les quatre cents coups do Truffaut também ajudam a gostar do filme um pouquinho mais)