PLACAR FINAL DA MOSTRA : 18 FILMES
Why bother?
Como já diz o ditado, não se faz uma boa omelete sem quebrar alguns ovos. E numa mostra, não se assiste bons filmes sem que se entre em furadas ainda melhores. Já no primeiro dia, tive o prazer quase masoquista de enfrentar O susurro dos Deuses .Filme pseudo-polêmico de um diretor que ainda vive da teoria de que é preciso chocar pra chamar atenção. Menção honrosa ao vômito quase comido, ao porco virando toucinho e a cena de sexo “inter-species” , que ao contrário da mulinha de Kevin Smith, não teve nada de agradável. Nota zero.
Eu sou aquela que traz flores pro túmulo dele foi o documentário com potencial e que assitido num domingo à uma da tarde serviu de pano de fundo pra sonequinhas delicadas. As partes interessantes eram , well, interessantes, e as ruins valeram pelo soninho recuperado.Nota 5,0.
Holly foi o filme “filler”, que seria interessante caso tivesse acabado 20 minutos antes (apelo ao editores do mundo: criem bolas e falem a verdade aos diretores!!). Valeu por ver “Burger”- the post-it guy de Sex and The City comendo o pão que o diabo amassou. Nota 5,5.
Já Juventude em Marcha será pra sempre o filme que me roubou preciosas 2 horas e meia das quais nunca mais terei de volta. Se em qualquer outro filme muito ruim já visto pude dizer que obtive algo em troca, nem que fosse um “hey, ao menos sei o que não fazer num filme” ou mesmo umas boas cochiladas, esse filme me deixou num estado de irritabilidade profundo. O português , que não era de Portugal e parecia ser de Plutão, os clarões e escuros que só doiam os olhos e , num filme onde os personagens são tudo, eram a síntese do NADA. Interesse zero pelos corpos que perambulavam pela tela. Irritantes. O primeiro filme que deixei antes de acabar (minutos antes, o que é pior). Um desastre de carro do qual não consegui desviar o olhar. Nota -2,5.
Decepção em animação
Não assisti Waking Life. Antes do amanhecer. Depois do amanhecer (nem o Sol vi =) ). Mas por osmose, acabei absorvendo Richard Linklater. E tinha três informações essenciais antes de assistir A Scanner Darkly. 1. Linklater é talentoso. 2. A técnica seria a mesma de Waking Life (que acho bem legal). 3. Seria uma adaptação de um livro do fodástico Philip K. Dick. O que poderia se tornar um filme bom mesmo não tendo estabelecido conexão nenhuma comigo desde o príncípio, mas que ainda assim se mostrava interessante em argumento e formato foi perdendo força e , ao fim, se tornou um nada. Desperdício de roteiro e técnica, e , com ninguém mais pra se apontar o dedo, o único culpado é Linklater, que não soube dosar no que dar atenção na história. Nota 7,0.
It’s Hollywood , baby!
Já sabendo o que ia encontrar, fui assistir O Ilusionista. Pra alguém pouco exigente como eu em termos edwardnortonísticos , fico feliz só em ver meus 50% de Tyler Durden anywhere e anyhow. Um filme redondinho, sem muitos furos de roteiro, direção bonitinha e sensação de “muito mais” na interpretação de Norton e Giamatti. Nota 7,0.
Um estranho no ninho
No meio do rebuliço da Mostra, foi possível incluir o mais novo de Palma. Para minha alegria e surpresa, Dália Negra é bom. Para minha total confirmação, não é ótimo.A novidade agora com o cineasta é a autocópia. Ainda assim as melhores tomadas são as chupadas dos mestres do Noir e Hitchcock (sempre ele). Sem contar que o filme sofre de um mal comum: o alongamento excessivo de trama. Meia hora a menos teria evitado minha atenção de ter se esvaído ralo abaixo. E como em qualquer filme do diretor, os pecados de roteiro são relevados pela técnica, principalmente a dobradinha fotografia +direção de arte. Ótimas também são as duas femme fatales. Quando surgem na tela, Hilary Swank e Scarlett Johansson fazem todo o resto ser esquecível. A primeira se garante num papel onde não tem que ter mais testosterona que talento. E a segunda é, sem dúvida, a feia mais bela do cinema. Nunca será linda, mas como a câmera (e nós, e o Woody Allen…) gostamos de olhar pra ela…Nota 7,5.
Histórias tenebrosas
Assistir à um filme mudo com acompanhamento de música ao vivo era uma experiência inédita e , espero, não única. O título e a presença de Allan Poe não enganam por muito tempo e logo se percebe o tom do filme. Humor. Filme feito no começo do século XX, tem como atrativo principal os atores , ótimos, divertidos e totalmente à vontade com o que , na época, não era uma mídia da qual estavam tão confortáveis quanto o teatro. Deu saudades das aulas de História de Cinema da FAAP, regadas à filmes desse tipo. Nota 7,5.
The Bridge
O suicídio é um tema que , mais do que a maioria, atrai minha curiosidade. Além das perguntas clichés de sempre, há um incrível fascínio sobre as pessoas que tomam a decisão final e que , ao contrário dos que condenam o ato o considerando descontrole, requer sim a lucidez para ter tamanha escolha. Dolorosas são as cenas captadas ao léu dos que se matam na Golden Gate e fascinates são os depoimentos dos que conheciam as vítimas. Ótimo documentário principalmente pelo enfoque dado. Nota 8,0.
A fábula que Shyamalan não fez
Se criar fábulas fosse coisa fácil, encontraríamos Wilhelms and Jacobs Grimm a cada esquina. Mas, se retratar a realidade já é tarefa ardua, criar um mundo novo e só seu, e que ainda se faça interessante aos demais é mais difícil ainda. El labirento del Fauno é maravilhoso nesse ponto. Guilhermo del Toro cria um paralelo fantasioso à Guerra Espanola de Franco via olhos de uma menina preciosa. Como toda criança, esta também tem um mundo só seu e nele vive. É princesa, passa por paredes, vai a outras dimensões (kuddos ao ser com “olhos nas palmas das mãos” - precisou de pouco pra assustar muito) e abstrai todo o sofrimento que vive no mundo real. E nesse mundo ela viverá eternamente , mesmo depois que sua vida se acaba do lado de cá numa bela analogia à morte. Lindo conto, belamente filmado onde o vermelho brilha mais que tudo. Nota 8,0.
The Israeli girls
No 1° dia de repescagem passei a tarde e noite no mesmo cinema, e pude ver todos os seis diários de David Perlov. O que faz um diário interessante é a vida relatada por ele e as lentes de sua câmera captam acima de tudo, suas filhas gêmeas. De todos os 10 anos da vida do diretor, o que dá graça à sua vida e aos filmes são a presença das duas garotas (que se tornam mulheres durante o percurso). Uma tomada única somente de conversas ou o fato de uma das duas estar em cena transforma o documentário em algo muito melhor do que já é. Nota 8,0.
No mesmo dia finalmente conferi Coisas que o Sol esconde. Filme que oficialmente encerrou minha 30a Mostra e que, por escolha própria quero que seja o último na memória desse festival. Repetindo o que li e escutei sobre este, o filme não pode ser descrito como nada além de su-bli-me. Tudo por conta de (também) uma menina adorável. Numa família disfuncional , a pequena Didush se torna o ponto de equílibrio e a resposta para muitas das perguntas do que se passa de errado com todos os envolvidos. Superando minhas expectativas, é um filme doce e reflexivo. Nota 9,0.
A má compreensão
As pessoas não se entendem (e nunca o farão) não por que existe a barreira da língua. A língua é SÓ a parte mais latente de todo o conflito que ocorre quando seres humanos distintos e criados de maneiras díspares tentam viver num mesmo planeta e numa tal “globalização” que só existe nas mesmas teorias que um dia acharam ser possível viver num mundo igualitário. Ignore a mais do que cansativa moral sobre como os americanos vivem em sua bolha e veêm o mundo. Isso não mudará por que eles são o topo da nossa atual (e talvez derradeira) torre de Babel. Preste atenção nos mais jovens do filme. Os dois pequenos americanozinhos, hablando español e falando a língua universal das crianças, junto de seus iguais que só nasceram do outro lado do deserto. Os dois irmãos marroquinos, vítimas de uma ato falho, de uma bobagem que crianças e adultos às vezes cometem, o “shit happens” que não tem como ser traduzido. E a garota surda. Imune a qualquer som e linguagem e por isso, vítima de si mesma. Falar é expressar o que sente e por isso ela é incapaz de transmitir tudo aquilo que está dentro dela. Um filme grande, com o poder de deixar as pessoas doentes. Ainda assim , necessário e espero que não fique superestimado pelo próprio burburinho. Nota 8,5.
I HEART NJ
Num mundo onde nem todos nascem Kubrick , não há demerito em se assumir. Nem todo filme nasce clássico mas muitos se tornam um por que tem a sua peculiaridade (e de quem o fez) expressa em cada frame. A batida do hey hey hey de Don’t you forget about me pra sempre lembrarão os cinco adolescentes no dia de detenção na escola bem como twist and shout dos Beatles pertencerá também a Matthew Broderick pra todo o sempre. Esses filmes, que no vácuo que foi os anos 80, foram o sinal verde pra que um nerd bitolado em pop culture e diálogos percebesse que cada um (tem o direito) e faz cinema com os únicos atributos que possui.
Kevin Smith assim também virou cult falando (e muito), usando a camêra amadoramente, aprendendo no erro e despejando na tela -e no ventilador- sexo, escatologia, New Jersey e star wars. Só foi feliz, dentro e fora das telas, enquanto fez o que gostava e sabia melhor fazer. Virou ídolo de Deus e o mundo pelo mesmo motivo. E foi tentando encaixar sua forma redonda na caixinha quadrada e careta que é Hollywood que se estabacou de vez. Por isso, Clerks II é a delícia que é. Divertido como só Kevin Smith consegue fazer um filme, ainda é um puta pedido de desculpas. Pra todos e pra si próprio. A volta do filho pródigo àquilo que o fez ser bom. Além do que, quem mais chutaria a bela bunda gorda dos fãs in-su-por-tá-veis de Lord of The rings senão o velho Smith??? ( e me faria perceber que eu também não faço mais parte da geração vigente - 1979 is already a classic too!) Nota 9,5.
Farewell and good bye
Abrindo a Mostra com chave de ouro, A Última Noite pode ser o último filme de Robert Altman. E, honestamente, gostaria que o fosse. O fiapo de história é a derradeira apresentação do show de rádio A prairie home companion que, como mesmo explica alguém no filme, parou no tempo e nem sabe disso. E é uma bela analogia à obra do diretor. Também parada no tempo se tornou a estética Altmaniana. Os eternos ad libs fundidos aos longos diálogos, os travellings que flutuam em cena e as longas conversas sobre o nada que são o tudo da cena. É com um gosto bittersweet que se assiste em 2006 aos mesmos trejeitos que um dia foram vistos em Nashville, por exemplo. A certeza da despedida de um dos últimos mestres. Dito isso, só resta falar de Meryl Streep. Meryl , Meryl, Meryl…a atriz que já nasceu com colete salva-vidas acoplado. Em filmes ruins, tudo afunda, menos ela. E em filmes perfeitos, como a Última Noite, Meryl se torna o Sol de um sistema solar. Tudo gira em seu redor, os artistas menores nada mais tem a fazer senão gravitá-la e se manterem sob sua energia. Aos reles mortais resta admirá-la. E ainda por cima, ELA CANTA! Oh, Meryl… Nota 10,0!
Le Meilleur
Zac nasceu no dia de Natal. De família católica. Tem mais quatro irmãos. Cada um representando um estereotipo de filho.O marginal. O atleta. O nerd. O sem sal. Coube a ele ser o gay. Sua família não é melhor nem pior do que as outras. Seus pais são do caralho, como todo pai e mãe sabem ser , dum jeito só deles. E às vezes são totalmente square como progenitores também são. Todo tipo de proteção que a família tenta dar a Zac e seus irmãos (a mesma proteção que o diretor nos dá) é naive e meiga, com boas intenções. A simbiose entre mãe e filho é magnífica e mostra que pais tem consciência do que fizeram (os filhos, no caso) e aceitação está só um passo além. Rolling Stones se faz trilha sonora na Missa do Galo. O mais melancólico Bowie abre portas (ou closets) e Charles Aznavour fica cool.Falar mais é estragar tudo. O mesmo seria revê-lo muitas vezes. De tão bom, dá vontade de não mais assisti-lo, guardando a experiência pra momentos especiais. Seus nomes são Christian. Raymond. Antoine. Zachary. Yvan. A nota é 100...

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